quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Édipo X Inconsciente Coletivo

Freud, numa conferência sobre neurose obsessiva: “porque há muitos exemplos na literatura bla bla bla, de Breuer bla bla bla e de Jung sobre a demência bla bla bla, numa época em que ele era apenas um psicanalista e ainda não aspirava a ser profeta”.
Pobre Carl Gustav.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

How to?

Como perder quase todas as suas (poucas) leitoras?
Simples, basta dar sua opinião dura e sincera sobre Sex & the City.
Sim, Sex & the City é um dogma. Se não quiser confusão com as mulheres, não diga nada.
Se você elogiar, será hipócrita, se criticar, não entende nada das mulhes e do seu (delas) mundo.
Simplesmente vá assistir com o seu bem e finja-se de morto na hora da conversinha "e aí, o que você achou?".
É mais seguro.

C'est ça.

segunda-feira, 30 de junho de 2008


Sex and the City

Não há muito realmente o que comentar sobre a versão para o cinema de Sex and the City.
Diria que é longo, muito longo. Tem, pelo menos, uns 40 minutos sobrando.
Eu até que gostava da série, porque nela havia humor razoavelmente inteligente e a dose certa de escracho. No filme é só melodrama barato, com algumas pitadas de humor rasteiro. Ou seja, pouco para te manter acordado por mais de 2 horas e meia.
No mais, mantenho minha opinião sobre a "linguagem feminina" que, dizem, é o principal predicado da série (e do filme). Dizem que o seriado é interessante e original por trazer para a luz da grande mídia, de um jeito desmistificado, as conversas ditas "de mulher". Que mostra as mulheres como seres humanos independentes e pensantes, uma visão das mulheres pelas mulheres, sem preconceitos. Porém, sempre achei no mínimo fúteis as tais "conversas de mulher" sobre moda, homens, maquiagem, homens, sapatos, homens, bolsas, homens, a busca do par perfeito, homens (ou seja, 99% dos diálogos da série e do filme). E antes que me acusem de misoginia e machismo, acho igualmente fútil a conversa "de homem" sobre futebol, gostosas, carros, gostosas, carros, gostosas, carros gostosas e comprar um carro para pegar umas gostosas.
Falta inteligência de um lado e do outro.
E Sex and the City não contribui para melhorar a situação.
Resumindo, é perda de tempo.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Get Smart
Assista à versão para o cinema e veja um exemplo mais do que claro da diferença entre o humor inteligente, irônico e refinado de Mel Brooks e o humor para as massas de Hollywood. Nem o talento de Steve Carrel e Alan Arkin salva o filme de ser só mais uma comédia mediana. Divertidinho e só.
Saí de lá e comprei imediatamente a primeira temporada da série original.
Faça o mesmo e descubra que o cone do silêncio (na versão original) é absolutamente hilário, mesmo que apareça em quase todos os episódios e você saiba (quase) exatamente o que vai acontecer.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Cuidado!!

A qualquer momento alguém pode apertar o shuffle songs do seu iPod.
Tenha sempre um Sonic Youth para te salvar.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Herbie Hancock
Existe uma regra não escrita nas sociedades urbanas contemporâneas que diz que jazz é coisa de gente culta, instruída, moderna, cult, cool.
Daí acontece que de vez em quando o fulano está lendo a Vejinha (único veículo de informação cultural que ele conhece) e descobre que um ícone do jazz vai tocar na sua (dele) cidade. E ele pensa: "puxa, vou impressionar o pessoal do escritório; vou lá ver e depois conto para todo mundo; a galera vai pensar que sou descolado". Principalmente porque o ingresso mais barato custa 300 paus.
Só que, na verdade, ele gosta de Ivete Sangalo.
Para impressionar, ele convida a gatinha, que gosta de Chiclete e Babado Novo.
E eles vão.
Ela chega de salto e longo. Ele põe paletó sem gravata e eles zombam do povo que vai mal vestido.
Pedem champanhe e pastel.
Daí o show começa e eles não conseguem entender porra nenhuma.
- Que merda de música é esta que não dá nem para acompanhar batendo palma? (ele pensa quando a banda começa um groove em 7/4, daqueles que não dá para acompanhar nem batendo o pé).
Ela estranha o fato de não ter ninguém cantando e rebolando no palco.
E eles ficam aborrecidos já nos primeiros três minutos de show. E fazem o que todo imbecil desta estirpe costuma fazer: ficam conversando em voz alta o resto do show. Chamam o garçom toda hora para reclamar de alguma merda e não percebem nem quando o cara toca o seu maior "hit", que até eles devem conhecer de ter ouvido um dia em algum restaurante fino.
Saem antes do fim para não pegar fila no manobrista e vão comer um hambúrguer.
E chegam felizes em casa, se achando os descolados.
Bom, apesar de 74% da platéia ter sido formada por casais assim (de todas as idades), o show foi sensacional. O velho Herbie tem que se esforçar demais para conseguir fazer um show ruim. Com Natan East no baixo e Vinnie Colaiuta na bateria a chance cai para zero.
Domingo tem de graça no Parque Villa Lobos.
Vejo você lá.
Mas se você vai só para impressionar alguém, desista, saiba que já perdeu a oportunidade.
Show de graça no parque é coisa de pobre.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

The world since the end

Não, isto não é um fotolog, mas...
Aqui ainda estava longe, muito longe:

Daí, um paredão de pedra:

Foi ficando mais perto:
E de repente estamos lá em cima:
Priceless.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Agulhas Negras



Tá me vendo ali em cima?
Olha de novo na sexta.




Se der, passo ali no Prateleiras

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tem dias que acordo com a plena certeza de que o relacionamento humano (aqui eu quis dizer relacionamento amoroso, namoro, casamento, rolo etc.) é mesmo um milagre.
Reparem que não basta que as pessoas se sintam atraídas instintivamente (olhar, cheiro, sedução), até porque nunca bastou. Também é preciso, claro, que tenham afinidades, ambições parecidas, visões de mundo semelhantes, gostos compatíveis, interesses a compartilhar.
Se tiverem as duas coisas, o que já é absurdamente difícil, eles têm que estar em fases parecidas na vida. Se um tiver acabado um relacionamento difícil e o outro estiver disponível, não dá certo, porque o primeiro vai querer dar um tempo antes de se envolver. Também pode acontecer de um dos dois (ou os dois) estar em fase de dedicação a um projeto (viagem, carreira, filatelia, coleção de borboletas). Se um for muito mais novo, vão achar que não dá certo. Se um for bom demais, o outro vai ficar inseguro e com medo de decepcioná-lo depois. Se eles se conhecerem numa balada, ela não vai querer ficar com ele, porque vai achar que não se encontra ninguém decente na balada. Ou, se achar que ele até que é decente, vai dar o telefone e ficar louca para ele ligar no dia seguinte, mas ele não vai ligar, porque vai achar que ela não gostou dele (porque não quis ficar). Ou ele vai ligar três dias depois para não parecer desesperado, mas ela vai achar que ele demorou demais e por isso não está interessado. Pode também ser que ela tenha outros tantos compromissos e interesses e não tenha tempo para que eles se encontrem de novo e se conheçam melhor (mesmo que eles tenham demonstrado ter afinidades e interesses parecidos). Se ficarem juntos na balada, ele não vai ligar no dia seguinte, porque vai pensar que ela é muito fácil, fica com qualquer um (mesmo que ele mesmo não se ache qualquer um). Mas, por outro lado, se eles forem apresentados por amigos, ela não vai querer ficar, porque vai pensar que ele vai pensar que ela é uma puta duma encalhada e que precisa dos amigos para arrumar alguém. Ou ela vai ficar tímida e envergonhada por causa da situação e não vai demonstrar o interesse que tem. E ele vai pensar que ela não gostou dele e vai desistir.
Além disso é preciso que os dois estejam disponíveis, que o beijo seja bom e que ambos tenham expectativas semelhantes sobre como se desenvolve um relacionamento, que morem na mesma cidade e tenham tempo e vontade de tentar. É preciso que os signos combinem, que torçam para o mesmo time, tenham a mesma religião, votem no mesmo partido, tenham a mesma opinião sobre aborto, eutanásia, descriminalização da maconha, casamento gay, racionalização do espaço urbano, proibição do fumo em bares e restaurantes, desmatamento, desenvolvimento sustentável, socialismo ou capitalismo, realidade ou utopia, praia ou montanha, carro ou bicicleta, japonês ou churrasco, cerveja ou vinho, sair ou ficar, levantar ou ficar na cama, acumular ou gastar, enraizar ou viajar pelo mundo, ir ou voltar, nadar ou correr, subir ou descer, impressionismo ou realismo, Miami ou Europa.
Enfim, é um milagre.
Se você, como eu, é inteligente, não exatamente lindo(a) mas até que charmoso(a), cuida da aparência, tem bom gosto, é culto(a), gente boa, estudou, leu os clássicos, conjuga verbos direitinho, sabe manejar concordância e regência e a diferença entre adjetivos e advérbios, sabe falar pelo menos mais um idioma além do seu, pratica esportes bacanas, trabalha, frequenta lugares legais, lê, assiste, ouve, escreve, cozinha, viaja, fala, escuta, compreende, ajuda, é companheiro(a) e acha que é tudo isto que outras pessoas procuram quando querem um par, saiba que você tem razão, é isto mesmo que elas procuram.
Mas saiba que além disso tudo, ainda é preciso um milagre.
E, ao que consta, eles não acontecem todo dia.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Sad but true

Despite all of my rage I'm still just a rat in a cage.

sábado, 17 de maio de 2008

Etiqueta

Seria muito legal se as pessoas percebessem que é educado pelo menos dizer "não". Especialmente se acompanhado por um "obrigado" depois da vírgula.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

In the Mood of Love

E acontece mesmo que algumas pessoas são especiais para a gente. Poucas, muito poucas, às vezes uma só numa vida. E essas poucas pessoas a gente quer ter por perto sempre e toda hora, e quer abraçar e abraçar até quebrar a espinha, beijar até o lábio ficar em carne viva e transar como nunca transou (e nunca mais vai) com ninguém. E para essas poucas pessoas a gente quer contar tudo e dessas poucas pessoas a gente quer saber tudo, mesmo quando está longe e não tem como saber nada delas.
O problema é que a gente quer ser especial também.
Mas também sucede que é raro, muito raro, que a gente seja especial para a pessoa, do mesmo jeito que ela é para a gente. Então a gente fica triste e amarga. E fica pensando que o mundo é mesmo muito injusto.
E o mundo é mesmo muito injusto.
Porque quase nunca a gente é especial para a pessoa do jeito que ela é para a gente.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ela entrou sem sorrir e sem sorrir ficou muito tempo.
Ele, sonhador que era, desenhou o sorriso dela em sua imaginação.
E o sorriso era tão lindo que a partir desse momento não teve outra escolha senão fazê-la sorrir para sempre.

domingo, 13 de abril de 2008


My Blueberry Nights

Para Wong Kar-Wai o amor sempre foi uma equação sem solução e as desilusões são dízimas periódicas que vivem e se estendem infinitamente nas mentes de seus quase sempre deseperados e desesperançados sofredores. Mas neste My Blueberry Nights algo mudou, apesar de a maioria dos críticos insistir no lugar comum de dizer que ele novamente conta a mesma história só que com um novo cenário. Existe, sim, a presença constante e notadamente densa do fracasso e da impossibilidade do amor. A novidade aqui é a esperança, coisa que não havia em 2046, In the Mood of Love e nos outros filmes anteriores. O que antes era angústia e sensação de inevitabilidade do fracasso, agora é reforço afirmativo de que, por pior que uma situação se apresente, há uma possibilidade de saída, ainda que não a melhor que se poderia escolher. Não por acaso, os claustrofóbicos cenários de 2046 e In the Mood of Love (ruas escuras, cabarés esfumaçados, becos, chuva) são substituídos pela amplidão quase infinita da América das highways. Mas ainda assim é um Wong Kar-Wai legítimo. Ainda estão aqui a quase beleza amarga da desilusão e do sofrimento, os planos inusitados, a classe e o estilo de um cineasta que sabe que já ocupou seu espaço, a trilha sonora precisa e emocionante, fragmentos de histórias que se interconectam com o argumento principal. A diferença mais marcante talvez seja o fato de que Kar-Wai já não parece mais estar defendendo uma tese (a impossibilidade do amor), mas sim avaliando e abordando os mais diferentes pontos de vista do fracasso, o que pode incluir, por que não?, a redenção.
Já li por aí que não é genial, mas pouca coisa realmente é. Também já ouvi que o desfecho é previsível, mas acho que a maior parte das pessoas não se tocou que, justamente por se tratar de Kar-Wai e no contexto de sua obra anterior, ele é tudo, menos previsível. Ou, como queiram, Kar-Wai contou de novo a mesma história, mas mudou o fim.
De quebra, tem uma das cenas de beijo mais bem filmadas que já vi e a participação relâmpago da Cat Power, com charme até a tampa.
Altamente recomendável.
Num cinema perto de você.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Na escola

O Seu Guedes, que é porteiro de um prédio aqui perto, ficou triste e decepcionado e perguntou quem é que vai ensinar contas de dividir para ele, porque ele acha que são as mais difíceis. Mas ficou impassível, porque homem, especialmente cabra macho do Piauí, não chora.
A Dona Loira, que é faxineira do Paulista Grill, chorou baixinho, principalmente porque eu levei ontem uma cartilha Caminho Suave para ela e ela gostou bastante. Mulher chora, ainda que seja do Piauí.
A Cleide (nome fictício, pois não consigo nunca lembrar o nome dela, que é meio complicado, tipo Deocleidelina), que é empregada num prédio bacana na Cristiano Vianna, ontem levou uma torta de morango e chorou também, mas não disse o motivo, não. Talvez porque eu a ensinei a escrever o nome do filho, que é Lucas.
A Dona Cida, que é empregada no prédio mais bacana da região aqui na minha rua, ontem levou uma torta de frango pra mim. Ela chorou muito, porque disse (exagerando) que nunca ninguém tinha se preocupado com ela daquele jeito antes. Deve ser porque eu passei muitas horas tentando explicar a lógica da cartilha e da letra C pra ela. Mostrando que realmente não tem lógica "bê" com "a" ser "bá", "dê" com "a" ser "dá", mas "cê" com "a" não ser "sa". Pior, que não tem lógica nenhuma em "dê" com "e" ser "dé" e "cê" com "e" ser "sé" e não "qué".
Daí ela perguntou soluçando se, pelo menos, a viagem era para a minha felicidade.
E eu fiquei quieto, chorando por dentro, porque não sei a resposta.

quinta-feira, 27 de março de 2008

A memória e o que fazemos dela

Não foi um dos dias mais felizes da minha vida aquele sábado em que o jornal chegou à minha porta com um abraço estampado na capa. Não era nenhum sábado especial, porque aquele era um tempo, desde que Ana tinha ido embora, em que nenhum dia mais era especial. E neste dia inespecífico, igual a todos os outros, no jornal que chegou à minha porta havia um abraço tingido de angústia e de tristeza.
Foi sem muita certeza que peguei o jornal e trouxe para dentro, distraído é que fui ler o horóscopo de Ana, sem atenção foi que passei os olhos pelos quadrinhos, sem nenhum interesse foi que descobri que o mercado financeiro, o governo, o congresso e o Oriente Médio ainda estavam em crise, disperso foi que descobri que mais pessoas estavam num ônibus a caminho do espaço, aborrecido, passei pela grandiloqüência dos editoriais e cheguei à fria arrogância da crítica literária. O apito da cafeteira não interferiu na letargia. O sol que se deu o direito de passar pela barreira das cortinas também não. Também não adiantaram o telefone que tocou, a morna saudação de Chico, o labrador, ou a lembrança de que era aniversário de alguém, talvez alguém muito próximo. Nada, naquele tempo, era alívio para o torpor.
A partir do momento em que me dei conta de que Ana não voltaria, passei a demorar demais para perceber a profundidade das coisas, abandonei os detalhes de tudo e, com a percepção absolutamente borrada, as coisas precisavam de muito mais tempo para começarem a mostrar algum sentido. Talvez por isso demorei tanto para finalmente me dar conta daquele abraço na capa do jornal, para perceber a violenta eloqüência daquele gesto que mumificou uma angústia que, de tão angulosa e saliente, pareceu vazar pelos poros do papel.
Foi então, que, ao ver, naquele sábado sem nada de especial, uma foto de um abraço na capa do jornal, lembrei-me de Ana e de nossos abraços e de um tempo em que a angústia ainda era um mero porvir.
E me lembrei de abraços ensolarados no Bar da Praia e de fugirmos da chuva no calçadão do Leblon, terminando com um beijo encharcado na entrada do Hotel Marina. De seus longos silêncios contemplativos e de que eu não me atrevia a abraçá-la enquanto ela trabalhava naquela mesma sala da nossa casa, mas também da lembrança de que eu a abraçava todo o tempo enquanto a observava, onde quer que estivéssemos. Também me lembrei da swinging London que reconstruímos só para nós e de abraços sem controle em Covent Garden. Das noites em que abraços eram a única forma de comunicação em nossa cama. De brigas que terminaram em abraços, de abraços sem motivo e outros com mil, de Ana e seus braços tatuados, abraçando meu corpo cansado no fim de um dia sem sol, de Ana com seus óculos vermelhos, me vendo sem me olhar, de olhos fechados, deixando que eu a abraçasse por trás, de abraços embaixo d’água, num salto de pára-quedas, no cume de uma montanha. Lembrei-me do enterro do meu pai, dia em que passamos horas abraçados, porque foi o mesmo dia em que soubemos que seríamos três, apesar de nunca termos realmente sido.
E, claro, lembrei-me de Ana em seu reino, em São Paulo, Rainha Ana, aquela que flutuava por entre os tráfegos, os brutos, os loucos. Postes, asfaltos, assaltos e injustiças. Ana, que com seus cabelos e lábios vermelhos tornava o cinza menos ofuscante e o sufoco do ar menos insuportável.
Dizem que a vida é uma sucessão de fatos intercalados entre acasos. Naquele dia, depois de
muito tempo, um acaso me fez lembrar de Ana. E foi inevitável lembrar do dia em que ela me abraçou e disse adeus.
O abraço foi o último, a angústia não acaba.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Qualquer domingo de junho, à tarde (The Police, “Synchronicity I”)

Fazia muito tempo que eu não ouvia Police. Desde que o filho da puta do Zé Galinha mudou para Fortaleza com minha coleção completa, ainda de vinil, que ele pegou emprestada e nunca devolveu, eu não tinha tomado coragem de comprar tudo de novo. E olha que já fazia mais de 10 anos, eram só cinco discos e eu já tinha comprado quase dois mil discos piores.
Desde então eu só tinha ouvido no rádio ou visto clipes na TV.
Não, mentira.
Comprei o Every Breath You Take, coletânea meia-boca, só com os "grandes hits", mas praticamente só ouvia três músicas: Every Breath You Take, King of Pain e Wrapped Around Your Finger, quando me sentia, pela ordem, romântico, deprimido ou quando sonhava em ser o cara que vira o jogo e conquista a mulher fatal que achava que o tinha sob total controle.
Ou seja, só o óbvio.
Até que um dia saiu uma caixa com quatro CDs chamada Message in a Box, com absolutamente tudo que os caras gravaram na vida, incluindo, claro, Synchronicity, o disco.
Por impulso, para variar, enterrei uma boa quantidade de grana na tal da caixa, importada, luxuosa.
E logo na primeira vez que fui ouvir não fiz o que seria o lógico (considerada a minha relação histórica com a obra do Police), que era ouvir na seqüência os três primeiros discos, Outlandos d’Amour, Reggatta de Blanc e Zenyatta Mondatta. Sempre achei estes os melhores. Não que eu não gostasse do Ghost in the Machine e do Synchronicity. Pelo contrário, sempre achei que estavam (e estão) anos-luz adiante de quase tudo o que se produziu na música pop na história, mas o fato é que, hoje tenho que reconhecer, na época em que os conheci não estava preparado para entender o que havia ali, expressa ou implicitamente, e me refiro tanto à música em si quanto aos temas que o Sting tinha passado a abordar. Minha personalidade não estava definitivamente consolidada para entender citações de Paul Bowles ou Jung, claro. Não que os outros álbuns anteriores não estivessem repletos de citações literárias e outros recursos estilísticos e estéticos que deixavam claro que o Sting sempre foi, antes de tudo, um erudito, mas o pano de fundo era quase punk e isto era o que me impressionava (minha tecla SAP ficava desligada).
Apesar disso tudo, tirei o lacre do tal box e fui direto para o Synchronicity, o que não fazia muito sentido, também, porque, naquela época, minha tendência já era de ficar voltando de modo ridiculamente nostálgico a tudo o que me conectava com a juventude que começava a já ficar perigosamente para trás, a tudo o que me lembrava a adolescência, o skate, as drogas. E Synchronicity, do jeito que ficou definitivamente registrado no arquivo das memórias, foi o embrião da minha vida adulta.
Mais do que tudo, ficou indissociavelmente ligado à Patrícia.
Ela era mais velha que eu. Uns quatro anos, talvez. Linda. Morena (meu velho vício). Sorriso lindo. Inteligente, intelectual. Bem resolvida. Cool. Enfim, tudo o que eu nunca seria em cem mil anos.
Num fim-de-semana qualquer de um ano qualquer em que eu ainda era um adolescente absolutamente comum metido a intelectual, um qualquer, na casa de praia do Rodrigo em Ubatuba foi ela quem veio falar comigo. Até tomei um susto. Para variar, estava num canto ouvindo Echo & The Bunnymen no walkman, com ar blasé e pensando como aquela galera toda era babaca (sem perceber que o babaca, no caso, definitivamente poderia ser eu), quando ela se aproximou e falou uma primeira frase que eu não ouvi.
Tirei o fone, pedi desculpas e disse que não tinha escutado, porque o som estava alto demais. Ela não repetiu o que tinha dito, mas perguntou o que eu estava ouvindo. Respondi “The Killing Moon”, com uma arrogância pouco disfarçada, respaldada pela certeza de que ela não teria a menor idéia do que se tratava. Até então eu achava que mulheres e bom gosto musical eram coisas absolutamente incompatíveis.
Fiquei assustado, claro, quando ela perguntou se eu tinha mais alguma coisa do Echo, porque a galera estava ouvindo Lulu Santos e ela estava ficando entediada.
Deviam ser cinco da tarde e nós ficamos conversando até umas cinco da manhã, ininterruptamente.
- No que você está pensando? – ela perguntou.
- Em que diabos eu estou fazendo aqui.
- Você também acha que não combina com esta galera?
- Definitivamente não combino.
- Onde você queria estar agora?
(Em qualquer outro lugar sozinho com você – pensei)
– Em Londres, respondi pateticamente, só para ela pensar que eu era moderno.
- Que legal, eu morei lá!!
(1X0 para ela, eu nunca tinha ido mais longe do que Ubatuba).
- Legal – respondi, ainda não acreditando que ela estava realmente falando comigo e, pior, sendo simpática e receptiva.
- Você acredita em sincronicidade?
- Hã?
- Jung, conhece?
- Claro - menti.
- O Jung dizia que existe uma espécie de conexão inconsciente entre algumas pessoas. Alguma coisa que transcende as relações materiais. Uma conexão quase telepática. Você acredita?
- Err – respondi, mostrando toda minha erudição.
- Eu pensei nisso quando vi você aqui neste canto, sozinho, ouvindo seu walkman com cara de entediado. Eu podia jurar que você estava ouvindo “The Killing Moon” e você estava mesmo. Fui muito com a sua cara, apesar desse cabelo no rosto tapar seus olhos. Achei que você é bem diferente desta galera.
(Ela estava lá com a irmã, que era amiga de colégio do Rodrigo e tinha sido convidada para o fim-de-semana. Até hoje não sei o que EU estava fazendo lá.
- Err – tentei argumentar.
- Você gosta de Police?
- Gosto muito dos três primeiros discos e algumas coisas dos dois últimos – respondi, quase cínico.
- Você já ouviu Synchronicity?
- Já. A música é legal, mas não acho que o disco seja assim tão bom. Acho que os caras já fizeram umas quarenta melhores – respondi, acabando de arruinar tudo.
- É, mas este é um disco com temas muito mais adultos, já percebeu? O Sting faz terapia Junguiana, né? Isto influenciou bastante - ela falou, sendo simpática e sem perceber que eu não tinha a mais vaga idéia do que ela estava falando.
- Rã, rã (fingi que entendi).
- Pelo jeito você não gostou muito.
- É, na verdade, eu achei muito pop. Essas baladinhas... Every Breath You Take, sabe? Tocou muito no rádio.
- Esquece o rádio. O que importa é a sua cabeça, o que você pensa. Presta atenção na letra de Synchronicity. Fala da teoria da sincronicidade, efeitos sem causa e outras coisas interessantes. Isto vale mais do que toda a obra do Legião Urbana. Presta atenção.
Fumamos um, bebemos e ficamos conversando até quase amanhecer. Ela falou dos livros que tinha lido, de uma Madame Bovary que só uns dez anos depois fez sentido para mim, dos shows que tinha visto em Londres (muito dos quais eu daria a vida para ter visto), de como ela achava que a sociedade hipócrita impedia que pessoas como ela (mulheres lindas, inteligentes e independentes, pensei comigo) pudessem ser espontâneas. Não precisava, mas ela falou também (porque eu perguntei) de alguns homens que tinha tido. Todos me pareceram melhores e mais inteligentes e mais preparados e mais adultos do que eu. Tive a exata noção de que eu nem mesmo merecia estar ali conversando com aquela mulher.
Mal disfarcei o fato de que eu era um completo pateta tentando impressionar uma mulher linda do jeito errado. O fato é que eu nunca havia falado antes com uma mulher sobre discos, filmes, livros, sentimentos, vida, como falei com ela ali.
Aliás, esta era a diferença. Todas as outras até então tinham sido menininhas imaturas e bobinhas, como eu, e a Patrícia era uma mulher.
Não tive coragem de beijá-la (o maldito medo) e no dia seguinte ela ficou com outro cara no luau.
Desde aquele dia não tive coragem de beijar outras mil mulheres, por culpa do mesmo maldito medo, mas nenhuma vez foi tão ruim quanto aquela.
Nos encontramos de novo depois, em festas de conhecidos, baladas, viagens. Conversamos bastante. Por causa dela descobri Dostoievski, Kubrick, Freud, Borges, Huxley, Hunter Thompson (céus, como uma mulher pode gostar de Hunter Thompson?). Descobri que às vezes é chato responder perguntas com outras perguntas, que é sempre legal perguntar para as pessoas como elas se sentem e do que elas gostam, que não é legal ser cínico, a não ser quando absolutamente necessário. Também a fiz descobrir muita coisa, como as vantagens de ser irônico.
Mas continuei com medo de beijá-la.
Na semana passada a encontrei casualmente no cinema (Truffaut) numa noite fria. Sozinha, como eu.
Continua linda e lembrou de mim e disse que sempre pensava naquele dia na praia e na sincronicidade. Ela talvez não saiba que foi o dia em que entrei na idade adulta. Que foi o dia em que descobri que uma mulher podia ser mais do que um mero meio para ter sexo.
Apesar de depois ter lido Jung, confessei a ela que não havia entendido direito aquela história de sincronicidade e o que aquilo tinha a ver com o nosso primeiro encontro na praia.
Ela me beijou e eu não tremi ao finalmente entender que aquela primeira frase, que ela nunca repetiu, era “Me beija?”.

sábado, 1 de março de 2008

Onde?

Para onde foram as palvras?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O fim em três atos (comece no ato 1 postado abaixo, esta é a parte final)

3. O fim não tem fim

Os dois se despediram com um abraço que durou alguns minutos.

“O que dizer?”, ele pensou.

- Bom, então é isto.

- Me liga – ela falou.

- Se cuida.

Ela achou melhor que ele não a levasse em casa e ele aceitou resignado. Ele, que tinha milhares de coisas para dizer, achou que não valia a pena falar mais nada.

- Eu espero com você até aparecer um táxi.

Esperaram em silêncio sob a fina garoa fria daquela noite de junho até que um táxi passou. Ela entrou e deu um sorriso triste sem mostrar os dentes, como se tentasse dizer algo. Ele pensou um instante sobre prováveis significados daquele sorriso, mas desistiu ao se lembrar que interpretar os sinais que ela lançava quase o levou à loucura. Literalmente.

Ficou um tempo olhando o táxi se afastar e caminhou até o carro sem se dar conta que não só as gotas da chuva haviam molhado seu rosto.

Depois daquela noite se falaram por telefone duas vezes, trocaram 16 e-mails e duas cartas, estiveram no mesmo ambiente sem se encontrar quatro vezes, perguntaram um do outro a amigos em comum sete vezes, ele passou na frente da casa dela três vezes, ela foi ao bar que costumavam freqüentar juntos cinco vezes.

E nunca mais se viram.

Mas um não deixou de pensar no outro sequer um dia depois daquela noite.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O fim em três atos

2. Silêncio

Ficaram longos minutos em silêncio, apenas olhando um para o outro.
Ele reparou que ela não conseguia encará-lo diretamente por muito tempo, que desviava o olhar, desconfortável. Mas sentiu que ela o observava longamente quando ele baixava os olhos.
Ela ficou muito tempo olhando para as mãos dele, fortes e bem desenhadas, e se lembrando da sensação inigualável de amparo que elas lhe causavam quando se abraçavam, sempre com força, beirando o descontrole. Lembrou-se que muitas vezes chegou a tremer de emoção ao ser abraçada por ele e achou graça ao lembrar que em algumas chegou a achar que tinha tido um orgasmo.
Ele tentou pegar a mão dela, mas ela não deixou.
Ela se lembrou da primeira vez em que dormiram juntos. Que não transaram porque ela, embora tivesse muita vontade, não estava absolutamente segura. Lembrou que dormiram abraçados e que transaram pela manhã e que teve o orgasmo mais fulminante e devastador de toda sua vida. Que chorou ao gozar, como nunca lhe houvera acontecido e não aconteceu depois.
Ele se lembrou que a primeira coisa que chamou sua atenção nela, apesar do corpo absolutamente perfeito, foi o sorriso. Pensou como era curioso que ela, apesar de ter um talento apreciável para dissimular as emoções, nunca conseguia fingir um sorriso.
Ela se lembrou do dia em que descobriu que os olhos dele mudavam de cor de acordo com a luminosidade, variando de um castanho cor de mel para um verde estranho, quase enigmático. Nunca conseguiu descobrir porque, apesar da fixação que tinha pelos olhos dele, não conseguia encará-lo sem sentir um certo desconforto.
Ele se lembrou da primeira vez que foram ao cinema e que assistiram a um filme francês muito chato, um tentando impressionar o outro passando por intelectual. Lembrou que não se beijaram e sequer se deram as mãos, o que quase arruinou tudo. Ela tomou a iniciativa quando se sentaram naquela mesma mesa pela primeira vez. Ele não se lembrou que música o pianista tocava, o que fazia com que não tivessem uma música oficial.
Ela lembrou que no começo achou estranha e até engraçada a fascinação dele por música, livros e filmes, mas que começou a levar a coisa mais a sério quando ele chorou ao ouvir uma música muito antiga de sua banda favorita tocada durante os créditos finais de um filme muito triste.
Ele quis que ela pelo menos chorasse como prova de que estava triste com tudo aquilo, mas sabia que, acontecesse o que acontecesse, ela não chorava em público.
Ela lembrou de perguntar se ele pretendia realmente largar tudo para ser escritor, mas desistiu.
Ele notou que ela tinha a ponta da unha do dedo indicador direito suja de alguma coisa preta. Sabia que ela tinha o hábito de cutucar nervosamente a canaleta do vidro do carro quando estava ansiosa.
Será que o futuro marido dela sabia disso?
Será que sabia que ela gosta de quadros, sapatos, vestidos, caixinhas de presente, lençóis novos, cheiro de bolo no forno, abraços longos com silêncios eloqüentes, gente simples, Billie Holyday, saxofone, sol de fim de tarde, cachorros e fotos de crianças? Que gosta de seu café forte e sem açúcar? Que gosta de torradas bem escuras, quase queimadas? Que sente muito frio e dorme sempre com um cobertor de lã bem surrado, mesmo nos dias mais quentes? Que se emociona quando olha para uma criança? Que chora muito em filmes, mas só quando está sozinha? Que não consegue abandonar um livro no meio, mesmo que não esteja gostando muito? Mas que, no entanto, tem incapacidade de se relacionar com pessoas de quem não gosta muito? Que gosta de andar de meias pela casa? Será que ele desconfiava que ela gosta de ouvir a mesma música várias vezes seguidas e que canta enlouquecidamente enquanto dirige? Que pinta quadros e não mostra para ninguém? Que não sabe andar de bicicleta direito? Que gosta de ler na praia, mas não na cama? Que gosta de abrir presentes sem rasgar o papel? Que fica envergonhada ao receber presentes? Será que ele sabia que ela tem medo de altura? Que gosta do mar? Que pretendia ter três filhos, sendo que duas meninas? Que gosta da cor verde? Que, em carros, não gosta de andar no banco de trás? Que não pronuncia a palavra azar? Que aprendeu a ler com quatro anos e a tocar piano aos seis? Será que sabia que ela gosta de ficar em casa, sozinha, em silêncio quando está triste? Que não gosta muito de televisão? Que ela tem o costume de fazer listas de tarefas e que odeia esquecer as coisas que tem que fazer? Que não consegue administrar seu tempo direito e que, por isso, está sempre atrasada para tudo e que isto a incomoda muito, apesar de as outras pessoas acharem que é desleixo puro?
Provavelmente não.

CONTINUA

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O fim em três atos
1. Palavras
- O escritor é como um objeto inanimado que registra a vida enquanto os outros a vivem.
- O quê? – ela perguntou com espanto depois de rir um pouco.
- É uma frase que usei no romance que estou escrevendo e que pareceu explicar um monte de coisas sobre... ah, deixa prá lá – ele disse visivelmente envergonhado, já arrependido de ter dito aquilo e ao mesmo tempo absolutamente convencido de que o que acabara de dizer explicava muito da impotência que sentia diante da vida, das pessoas e, sobretudo, em relação a tudo o que acontecera entre eles.
Começou a despedaçar o guardanapo, o que fazia desde que tinha parado de fumar, para disfarçar a ansiedade.
- Que legal! Então finalmente você está escrevendo o tal romance? – ela perguntou, enfatizando o "finalmente" - Sobre o que é? – completou retoricamente, sabendo do que se tratava.
Ele reparou que ela também rasgava o guardanapo de papel em micro-pedaços.
- Nada demais, só uma história de amor meio boba. Talvez nem termine. Não acho que está ficando boa de qualquer jeito.
Ela se curvou um pouco na cadeira e levou com graça a mão direita ao tornozelo para coçá-lo, deixando à vista, quando abaixou, a pequena fada azul tatuada na nuca. Ele lembrou que gostava do modo como ela, sempre com gestos rápidos e decididos, prendia os longos cabelos, cada vez de um jeito diferente. Lembrou que cada vez se surpreendia mais com as formas inusitadas que o arranjo assumia. “Seus cabelo são como impossíveis esculturas em movimento” ele uma vez escreveu num poema que nunca teve coragem de mostrar a ela.
O garçom se aproximou e os cumprimentou como sempre fazia. Perguntou se iriam querer o de sempre, o que ela confirmou com um sorriso e ele com um discreto aceno de cabeça. Ele pensou, na verdade, em tomar algo mais forte, mas se deu conta de que não precisava de coragem naquele momento, já que nada mais poderia ser feito ou dito que mudasse a situação em que estavam.
Ficaram um tempo em silêncio até que o garçom ajeitasse a garrafa de cerveja, os copos e o cinzeiro na mesma pequena mesa que sempre ocupavam, no lado oposto ao piano, bem no fundo, no segundo andar, acima da porta de entrada.
Ele não conseguiu deixar de pensar em como seria voltar lá depois daquela noite.
Brindaram quase protocolarmente e depois de mais algum tempo em silêncio ameaçaram dizer algo, mas, como acabaram falando os dois ao mesmo tempo, ambos pararam mesmo antes de completar a primeira palavra, o que fez com que ela sorrisse e ele se retraísse um pouco na cadeira.
- Desculpe, pode falar – ele disse com seu jeito tímido.
- Não, fala você, não era nada sério.
- Ah, eu só ia, sei lá, perguntar como você está. Você nunca fala muito sobre você mesma, então eu fico pensando se tudo vai bem, em como vão as coisas na sua casa. Sei que você sempre tem problemas por lá.
- As coisas vão bem, algumas brigas, você sabe, mas nada sério – ela respondeu, sorrindo enigmática e olhando para o lado, sem revelar muita coisa, como sempre.
Ele sabia que estava dando voltas, que o assunto não era aquele.
Distraiu-se por alguns momentos olhando o casal da mesa ao lado. Uma moça muito bonita, de pele bem clara, cabelos pretos lisos com uma franja levemente ondulada e olhos escuros muito vivos. Vestia uma blusa verde decotada e usava anéis nos polegares. Nela havia qualquer coisa, além da beleza, que chamou sua atenção. Talvez o jeito distraído com que cantava para si própria a letra da música que o pianista tocava. O rapaz parecia impaciente.
De tempos em tempos a menina fazia algum comentário, mas o rapaz não respondia. A menina, então, com um carinho e uma delicadeza que o surpreenderam, passou uma das mãos pelos cabelos do rapaz, que pareceu indiferente e ainda impaciente.
Começou a fazer o que não conseguia evitar nessas ocasiões: inventar em sua cabeça uma história para os dois. Seriam namorados? Só amantes? Haveria ali mais uma história de amor não correspondido? O amor é mesmo impossível e improvável como tantas vezes provou o Wong Kar Wai?
- Você se deu conta de que esta é a última vez que vamos nos ver? – ao dizer isto voltou a olhar para ela e percebeu que estava ainda mais bonita.
Ela mexeu no anel que tinha na mão direita.
- Acho que você está exagerando. Você sabe que o que eu sinto por você é muito forte e sabe também que nada do que aconteceu ou vai acontecer daqui em diante vai abalar nossa amizade.
Mas ela demonstrou certa impaciência ao falar, como se de repente houvesse percebido que ele podia ter razão.
- Não, escuta, estou falando sério! Você sabe que a situação mudou bastante agora e que eu não vou te procurar mais, por consideração a..., você sabe, a ele, a você, sei lá, por causa desta situação toda. E você sabe, melhor do que ninguém, que sou sempre eu que te procuro, que, aconteça o que acontecer, você não vai me procurar. Nunca.
Ela pediu um fósforo ao garçom e acendeu mais um cigarro. A coluna de fumaça azulada que se ergueu deu a impressão de realçar a expressão triste que se formou em seu rosto, talvez por ter encoberto a boca e o meio sorriso que nela ainda havia. Ele pensou em mais uma vez repreendê-la por fumar tanto, mas de repente se deu conta de que aquilo já não era mais problema seu.
Pela primeira vez desde que se dera conta da situação e do que aconteceria dali em diante, ele quis realmente estar errado, mas nem a ênfase com que ela recusou a hipótese o convenceu de que era realmente inevitável: eles nunca mais se veriam novamente.
- Olha, eu realmente entendo como você se sente, mas as coisas às vezes não têm uma explicação lógica. Eu quero que você acredite que nada do que eu fiz foi com a intenção de te magoar. Não tenho a intenção de deixar de te ver e de falar com você. Mas eu tenho que pensar em mim também.
Ele tentou interromper, mas ela continuou:
- Pôxa, eu sofri muito com esta situação toda. Tudo bem, eu até assumo que errei no modo como fiz as coisas. Podia ter sido diferente, eu sei, mas, pensa um pouco em mim, eu estava sofrendo demais. A situação não podia ficar como estava. Eu estava sofrendo demais, não ia aguentar mais – a voz dela ficou triste.
Ele ia interromper novamente, mas desistiu.
- E, acima de tudo, eu adoro você, você sabe.
Ele sabia.
Sabia mais: sabia que ela o amava como jamais houvera amado alguém antes.
- Eu sei disso, sei de tudo, já entendi tudo o que você fez e me disse, mas eu só quero que você se dê conta, para o seu próprio bem, de que esta é a última vez que nos vemos e a culpa não é nem minha nem sua. Só isso.
O pianista começou a tocar Piazzolla e ele sabia que a culpa era sua.
Ficaram em silêncio novamente e ele reparou que o casal da mesa ao lado se beijava.
- Deixa de ser bobo. É claro que as coisas não vão ser mais exatamente como antes, nem dá. Mas ainda acho que você está exagerando.
Ele pensou na verdadeira comédia de erros em que o relacionamento deles havia se convertido depois de todo aquele tempo. Pensou na terrível dificuldade que os dois passaram a ter de dizer o que realmente sentiam, o que acabou transformando os diálogos entre eles em verdadeiras sinfonias de mensagens subliminares escondidas em frases aparentemente despretensiosas, sinais de significados trocados, orgulhos feridos, vontades contrariadas sem nunca terem sido manifestadas, frases precipitadas ditas em momentos errados.
Enfim, um festival de mal-entendidos e impressões equivocadas.
E tremeu ao concluir, ali naquele momento, que nunca havia dito a ela o que realmente sentia.
Ela, que achava que o que tinha feito os afastaria, mas não a ponto de fazer com que nunca mais se encontrassem, ficou procurando motivos para que se vissem novamente depois daquele dia.
CONTINUA

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Fala, garoto

Serginho Groiman: Bom, agora vamos saber dos nossos convidados o que eles fariam se não fossem artistas. Primeiro você, Selton Melo.

Selton Melo: Eu mexeria com música.

Serginho: Música?

Selton: É, eu toco baixo e guitarra, tenho uma banda. Então, se eu não fosse ator, certamente mexeria com música.

Serginho: OK. Agora você, Ellen Jabour.

Ellen Jabour: Eu seria astronauta.

Serginho: Astronauta??!!

Ellen: É, eu até me inscrevi na NASA.

Serginho: Hã??!!

Ellen: Verdade, fiz vários cursos no planetário, sei tudo sobre as estrelas.

Serginho: Não seria astrônoma?

Ellen: Não, astronauta mesmo.

Serginho: Err, OK, agora você, fulano do Exaltasamba.

Pano rápido.

Momentos depois Serginho pede aos convidados que mostrem algum objeto pessoal que seja importante para eles. Eis que, Ellen, que é um gênio, mostra dois imãs. Diz que comprou recentemente e que ficou espantada com o fato de que numa determinada posição as pedras se repelem.

Deve ter faltado na aula da 3ª série em que o professor explicou que os imãs têm pólos negativos e positivos.

E ainda dizem que o Rodrigo Santoro é inteligente. Duvido. Nenhum homem inteligente de verdade consegue ficar mais do que duas semanas com um jumento desses, ainda que seja a gostosa que é.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

De como as coisas mudam

"...ficando um tempo ali parada, considerando a densidade da casa quieta, 'minha cela', segundo o comentário seco que ele fez um dia, misturando neste estoicismo coisas monásticas e mundanas, até que me desloquei entre aqueles fragmentos e atravessei a peça toda, e só foi cruzar o corredor p'reu alcançar a porta ali do quarto, boiando vagamente à luz tranquila duma vela: deitado de lado, a cabeça quase tocando os joelhos recolhidos, ele dormia, não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria aos seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura para receber de volta aquele enorme feto."

Assim termina Um Copo de Cólera. Assim começou minha vida depois de Um Copo de Cólera.
Que nunca mais foi a mesma, claro.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Iron & Wine

Só vou te dizer uma coisa: vai atrás. É uma das coisas mais legais que ouvi nos últimos anos.
O novo chama-se The Sheperd's Dog.
Vou ver se posto por aqui dia desses.
A triste verdade

As palavras se alimentam de dor.
E é isto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

- Quantas vezes você já foi abanadonada?
- Ah, não sei, muitas. Não sei direito. E você?
- Uma só, mas dura até hoje.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Chemical Brothers


Fui ver os caras ontem e diria que foi meio bom.
A primeira parte da apresentação foi fantástica. Com todos os hits e as melhores músicas do disco novo, com as tradicionais versões desconstruídas, botaram o povo para dançar. E para viajar com as imagens absurdamente legais do telão e com os lasers e outros efeitos.
Daí teve o bis, que até começou bem com mais uns dois hits. Depois os caras ficaram quase meia hora punhetando com barulhinhos sem sentido e batidas não dançantes. Eu diria que experimental demais.
Desandaram o bolo. Todo mundo parou de dançar e fez cara de tédio.
Daí acabou.
Vou pedir metade da grana de volta.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Nada como um dia depois de outro dia depois de outro dia

Plantão do Jornal Nacional informa: o amor renasce sim.
Não necessariamente pela mesma pessoa.
Ainda bem.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Três Shows





TIM Festival no sábado. Vi Katia B, Cibelle e Cat Power.
Katia B é uma cantora carioca que eu nunca tinha ouvido falar. Faz a mistura manjada MPB com texturas eletrônicas. Tem voz boa, excelente presença de palco, acompanhamento muito bom (bases eletrônicas mais bateria, guitarra, teclados, alguns sopros, violões, violas). Gostei das composições. É tudo mais para a eletrônica viajante e não estilo dancinha (Fernanda Porto). Bem näive, o que, para mim, é sempre bom. Vou atrás dos discos dela.
Depois veio Cibelle, que, dizem é uma paulistana que mora em Londres há 6 anos e tem sucesso nulo por aqui, mas é conhecida por lá fazendo algo como um retro-neo-tropicalismo. Por mim, podia ter ficado lá mesmo. Faz o estilo maluquinha, confusa, mas é tudo um tanto forçado. Cansa na segunda fala. Aliás, fala mais do que toca. Quando toca faz um som totalmente Arto Lindsay, ou seja, esquisitices sem sentido e fora de contexto. Teve umas três músicas boas e só. Mais uma versão desnecessária de London London.
Para esquecer.
Para lembrar mesmo foi a apresentação da Cat Power. Absolutamente à vontade no palco, não parou um minuto. Lembrou o Mick Jagger, de tanto que se mexe e anda de um lado para o outro. Na terceira música chamou o público para ficar em pé na frente do placo (o Auditório Ibirapuera só tem cadeiras) e foi obedecida por mais de metade da platéia que ficou lá grudada no palco, oferecendo flores, beijo e cigarros para ela. Apresentou um repertório super coeso de blues e 60's soul, com várias covers e versões bastante modificadas de músicas dos seus discos de repertório próprio. A garota tem uma puta voz e muita personalidade. Deu água na boca para o próximo disco (só de covers) que deve sair em janeiro.
Eu queria muito ver a Feist, mas, no fim, foi uma troca razoável.
Mas, no geral, a programação do TIM Festival deixou a desejar. Acho que foi a pior da história.
Dois Filmes




Vi Le Voyage du Ballon Rouge (da Mostra) e O Passado (já em circuito comercial).
Nenhum me arrebatou.
Le Voyage du Ballon Rouge é uma imensa perda de tempo. Não tem história, não tem densidade dramática, os personagens são superficiais, nada (absolutamente nada) acontece. Nem mesmo há imagens bonitas de Paris, o que se poderia esperar, já que o personagem principal é um balão que voa pela cidade. Aliás, o balão é o personagem mais complexo. Num dado momento tive a impressão de que o filme foi feito por uma criança de 11 anos com uma câmera na mão, dada a quantidade de planos bobos e cenas incompreensíveis.
Sei lá, de repente não captei a mensagem.

Já O Passado do Hector Babenco deixou gosto de quero mais. Só pelo argumento, que é bastante interessante (história baseada num livro do escritor argentino Alan Pauls). Me pareceu que faltou alguma coisa na composição dos personagens. Li a crítica do Inácio Araújo na Ilustrada e acabei concordando com ele depois que vi o filme: falta dramaticidade, falta a profundidade que no livro deve ter de sobra. A prova disso é que as pessoas acabam rindo de cenas que deveriam ser sérias (e no contexto são). Isto nunca é um bom sinal.
Nunca gostei muito do Hector Babenco (noves fora o Pixote).
Vou continuar não gostando.
Mas a Mostra ainda não acabou. Vou tentar ver mais alguma coisa interessante.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

TIM TIM


Pensando bem, o mundo até que não é um lugar tão ruim. Pensando melhor, até que é um lugar bacana. Ah, reparando direitinho, olha que dia lindo, não é mesmo?
E amanhã tem Cat Power.
Quem é Feist mesmo?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Triste TIM

Já não estava grande coisa. Agora acabo de saber que a Feist cancelou sua apresentação porque está com frescur... digo, labirintite. A boa notícia é que a Cat Power vai tocar no lugar dela. E eu não tinha conseguido ingressos para ver a Cat Power e agora vou ver. Anyway, what a fuck, não precisava ser no lugar da Feist.
Shit.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Mostra





(Só) Dois filmes na Mostra até agora: Control e Sonhando Acordado.

Control é a cine-biografia do Ian Curtis, vocalista e líder do Joy Division, dirigida pelo conhecido fotógrafo e diretor de videoclips holandês Anton Corbijn (no CV tem Enjoy the Silence e Personal Jesus do Depeche Mode e Heart Shaped Box do Nirvana). A fotografia é linda, toda em preto e branco, que funciona bem para ressaltar a onda introspectiva e algo opressiva da história. E a história é triste, todos sabem. Gostei muito das cenas da banda tocando. Joy Division sempre foi uma referência básica para mim, uma banda entre bandas, então já entrei pronto para gostar incondicionalmente do filme. Mas, surpreendentemente, vi detalhes na música e na química da banda que não tinham me ocorrido antes, de forma que saí gostando mais deles do que quando entrei. Como se ver a expressão do Ian Curtis (vamos combinar que o ator, que não lembro o nome, mandou muitíssimo bem) cantando aquelas letras pudesse fazer com que elas adquirissem um pouco mais de sentido. Sei lá, nem eu consigio explicar direito. No mais, como filme, vale a pena, claro, se você for (muito) fã da banda. Se não for deste tipo de fã incondicional e quiser ver o filme só para entender um pouco mais a personalidade atormentada do Ian Curtis, talvez se decepcione um pouco. Senti falta de um pouco mais de complexidade e de coerência na construção do personagem. Dá um pouco a impressão de que o cara era um cara normal e de repente, do nada (noves fora os problemas que todos têm), resolve se enforcar. Se eu não soubesse um pouco mais sobre ele acabaria achando que se tratava meramente de um bobo. Engraçado é que muito da angústia do cara estava escancarada nas letras das suas canções, mas o diretor optou por dar mais atenção à versão da história contada pela Debbie Curtis (esposa traída e injustiçada), já que o filme nasceu da adaptação do livro que ela escreveu, e esqueceu de mostrar o outro lado, ou seja a faceta verdadeiramente atormentada do cara. Isto gerou como resultado cenas meio bestas e sem sentido (ou rasteiramente melodramáticas), como aquelas em que a mulher bate na porta do quarto onde o Ian Curtis está trancado e ele simplesmente não responde. Somos levados a achar só que ela é uma pobre coitada que não recebe carinho do marido, porque o filme não se preocupa em mostrar o que acontecia dentro do tal quarto e, consequentemente, dentro da cabeça do cara. Enfim, achei que foi uma falha na construção do personagem principal. Além disso, tem o problema de sempre quando se trata de um filme sobre uma banda ou, como no caso, sobre o líder ou principal figura de uma banda. Nestes filmes normalmente o figura principal é sempre o mais esperto, descolado, inteligente e charmosos e o resto dos caras geralmente é mostrado como um bando de palermas. Isto me irrita.
Mas, apesar de tudo, acredite, o filme é bom.

Em relação a Sonhando Acordado, antes de mais nada, achei a tradução do título meio bocó. Para constar, La Sciences des Rêves (A Ciência dos Sonhos) é o título original. Diz muito mais sobre o filme. Gael Garcia Bernal está muito bem, como quase sempre, e a direção do Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) é especial como sempre. Como o assunto principal são os sonhos, o cara usa muito da linguagem do inconsciente, mesmo quando está tratando do mundo concreto. Mas, o próprio uso dos sonhos é só uma metáfora. O personagem principal não é exatamente um sonhador, na concepção mais fofinha do termo, mas sim um cara atormentado por visões distorcidas que tem das pessoas e da inquietude com relação ao passado, ao presente e ao futuro. É mais um filme sobre angústia do que sobre sonhos.
Me identifiquei com muita coisa lá.
Pena que não está previsto para entrar em cartaz. O jeito é ir atrás do DVD, que já foi lançado no exterior.

Hoje tem Chacun Son Cinema (Cada um com seu Cinema), obra coletiva que abriu Cannes este ano. Sexta tem Le Voyage u Ballon Rouge.

Depois volto aqui e conto como foi.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sonho

Então eu riria um pouco acanhado da sua falta de jeito e você me olharia de lado com o seu olhar profundo e um pouco melancólico, como quem pede desculpas.
Eu diria que já nos ferimos demais nos espinhos do nosso roseiral e você acharia estranho que eu falasse de espinhos e rosas, apesar de achar quase engraçado saber que penso conheçer bem as feridas que na verdade não conheço.
Você pensaria, mas não diria, que pareço mais velho e talvez um pouco cansado.
E ficaríamos em silêncio como quem vela uma palavra.
De tanto silêncio poderíamos pensar que desaprendemos a falar, ou então que já deixamos todas as palavras trancadas no labirinto empoeirado do passado.
E eu colocaria minha mão ao lado da sua para mostrar que nossas linhas da vida se completam e você entenderia o que quero mostrar.
Então eu fecharia os olhos para ter certeza que conheço seu rosto de cor e ficaria assim um tempão, te vendo sem te olhar.
Você acharia graça.
Não aquela graça que esfuzia, mas aquela delicada, que encanta.
Mas não ousaria interromper o silêncio.
Sem me olhar nos olhos, mas sabendo que te vejo perfeitamente, você enfim entenderia a rima da poesia que vem das palavras que só existiram como intenção.
E então eu sentiria com perfeição a vibração do sorriso que explodiria no seu rosto quando tudo finalmente fizesse sentido.
Quando você me tocasse de leve a mão eu saberia que quer me mostrar o sol nascendo lá fora, e que quer me dizer que a mescla de cores no céu da cidade feia é, ela também, poesia.
E também que o fato de um sol sair de onde antes só havia escuridão é um sinal de que tudo nasce, morre e renasce, para depois nascer, morrer e renascer de novo, num ciclo infinito.
E então, assim, no silêncio de um sol bonito refletido no mar mesclado de cores do céu da cidade feia, você enconstaria sua boca na minha para que o beijo fosse o caminho das palavras que não ousaríamos mais pronunciar.
E quando a claridade já não fosse menos do que inevitável eu tiraria sua roupa e nada mais seria mistério, e o amor, embora tivesse sempre sido óbvio, seria finalmente revelação, não mais dúvida.
E isso tudo eu chamaria de sonho.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

De água e ar, luz e calor

Era uma vez um amor. Ele nasceu bem pequeno, discreto, quase imperceptível, como todo amor. Passou o tempo e ele se alimentou bastante de paixão e esperança, os alimentos preferidos dos amores daquela região. E ele então ficou enorme, tão grande e vistoso que nem mais cabia mais no coração em que morava. Começou a ocupar todos os espaços que podia e não deixava lugar para mais nada. De tão espaçoso que ficou, expulsou a raiva, o egoísmo, a tristeza, o medo e a incompreensão. De tão forte, se tornou valente e desafiava a tudo e a todos. Chegou mesmo a se sentir imortal. Mas um dia a paixão que antes o deixara forte começou a faltar e ele passou a se alimentar só de esperança. Como só esperança não deixa um amor mais forte, começou a definhar e aos poucos ceder lugar para dúvidas e incertezas. Até que um dia também acabou a esperança e o amor, antes tão forte e bravo, foi ficando pequeno, triste, fraco.
Morreu ontem abraçado a um último pedacinho de esperança que tinha deixado escondido lá no fundinho do coração em que morava.
Talvez ela nem tenha sentido sua falta ainda. Talvez jamais sinta.
O triste é que ele, amor, sempre soube que os amores não renascem.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

2007 was a bad year

Pensei que fosse só comigo, já estava achando que era perseguição.
2007 começou bem, muito bem, não poderia ter começado melhor (né, Juju?). Mas daí foi começando a virar um ano só comum, besta, sem nada de espetacular. Mais ou menos no meio resolveu se transformar num monstro assassino, disposto a tudo para me eliminar. Tenho medo de como vai terminar.
Mas, enfim, despersonalizando (que a minha terapeuta diz para eu não me sentir o centro do universo), o 2007 nos legará?
Foi um ano sem emoção alguma.
Logo no começo li em vários lugares que seria um ano de super shows internacionais, com várias promessas bem interessantes (será que alguém um dia vai deixar de publicar em dezembro que com certeza o Radiohead está confirmado para o Tim Festival do ano seguinte?). Mas, sinceramente, noves fora minha preguiça, só o que vi de decente foi o Lee "Scratch" Perry. Se vi alguma outra coisa que fosse digna de nota, a idade apagou da memória.
A programação do Tim Festival é absolutamente sem graça (exceções honrosas de Feist e Cat Power).
Até a programação da Mostra de Cinema está bem fraquinha. Tão fraquinha que, salvo engano meu, a Folha ainda nem publicou o indefectível guia da mostra, aquele caderninho que o povo do all-star vai carregar na mão durante duas semanas e vai manchar de gordura nas mesas dos botecos da Augusta.
2007, o ano do chuchu.
Não vai deixar saudades.
Licença poética

Dá licença, mas este não veio em hora melhor:

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
(Paulo Leminski )

E não é que é?

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Life is very long when you're lonely

Era uma vez, alguém estava passando pela minha vida e eu disse "ei, pára, vem cá, porque você é aquela pessoa que, como dizem, só vai passar por aqui uma vez, e é seu aquele lugarzinho reservado ali".
Mas ela disse "você deve estar me confundindo com outra pessoa".
E nunca mais ninguém passou


Update: passou sim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007


Rattlesnakes

Vou propor um jogo interessante. Você vai lá, ouve este Rattlesnakes, espetacular álbum de estréia de Lloyd Cole & The Commotions, e tenta adivinhar em que ano ele foi gravado.É claro que se você conhece e já sabe não tem a mesma graça, mas pense que pela sonoridade da produção e dos arranjos e pelas (muitas e diferentes) influências que estão lá acumuladas, poderia ter sido em qualquer momento entre 1974 e ontem de manhã.
Perceba que este é um daqueles discos atemporais. Quero dizer, tem álbuns que estão muito ligados à época em que foram concebidos, às vezes por terem mesmo marcado esta época. Como o Sgt. Peppers, como disco da banana do Velvet Underground (este mais pela produção, porque a música que há nele é atemporal), como o Nevermind do Nirvana, como o primeiro dos Ramones, como o Never Mind the Bollocks. Não que estes álbuns sejam datados, pelo contrário, mas é que todos eles precisam ser entendidos no contexto da época em que foram feitos.
Este Rattlesnakes não. Repito, se ele fosse lançado ontem seria considerado moderno. E muito. Não moderno por ser eletrônico ou por criar um gênero novo, muito pelo contrário. O som está bem para anos 60, folk-rock, com pitadas de influências psicodélicas (Byrds e coisas do gênero). Arranjos muito bem costurados, com várias camadas de cordas e violões acústicos, ótimas melodias, climas calmos, texturas. O segredo aqui é a costura muito eficiente de diversas influências, que levou a um resultado bastante inovador, justamente porque parece com tudo e não parece com nada ao mesmo tempo.
Você vai achar influências de Leonard Cohen, vai reconhecer o estilo Bob Dylan de cantar falando, vai encontrar um jeito meio românntico de cantar, quase Brian Ferry, vai encontrar arranjos parecidos com algo que Van Morrison já fez. E, sobretudo, vai encontrar letras muito bem sacadas. Quase sempre com citações literárias (Norman Mailer, Truman Capote), cinematográficas (Truffaut, Greta Garbo, Eve Marie Saint) e filosóficas, as letras quase sempre falam das aventuras do garotão inteligente e cínico Lloyd Cole às voltas com mulheres inteligentes, descoladas, modernas, lindas, mas, ainda sim, inseguras e femininas.
Destaque para a faixa título, para Speedboat, para Perfect Skin, para Charlotte Street, para Patience e para Are Ready to be Heartbroken?
Quer saber, o disco todo é sensacional. Um pequeno clássico.
Aqui vai uma versão britânica qualquer com 4 bonus tracks.
Som indicado para namorar no sofá, dirigir na estrada, ouvir na praia pensando que a vida é linda, ouvir no escuro pensando que a vida é uma merda.
Ah, ele foi lançado em 1984, se é que você ainda não foi no google descobrir.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Falar

Estive pensando de novo outro dia (alguém um dia vai acabar me proibindo de pensar) e cheguei a uma conclusão.
De todas as pessoas com quem já conversei na vida (pais, parentes, professores, amigos de infância, amigos de adolescência, amigos reais ou imaginários, conhecidos, namoradas, chefes, estagiários, caixas de banco, balconistas de boteco, colegas de trabalho, atendentes de telemarketing, garçons, aeromoças, motoristas de taxi, clientes, secretárias, secretárias eletrônicas, médicos, enfermeiras, dentistas, cartomantes, instrutores de mergulho, plantas, peixes, cachorros, terapeutas, guias turísticos, vendedores de loja, mecânicos, pilotos de rally, professores de academia, manobristas, ascensoristas, delegados, escrivães, promotores, filósofos, jogadores de pôquer, espíritos, seguranças, policiais, flanelinhas, camelôs, mães-de-santo, cozinheiras, faxineiras, copeiras, arquitetos, corretores de imóveis ou seguros, vendedores de enciclopédia, lanterninhas de cinema, porteiros de boate), de todas as pessoas que já conversei na vida, todas mesmo, a que eu mais gostei de conversar foi você.
A razão disso é que conversar com você me acalma. Seu tom de voz me acalma, seu jeito me acalma, quase me hipnotiza. De você tenho vontade de saber tudo e pra você tenho vontade de contar tudo.
De você tenho vontade de aprender tudo o que não sei e pra você tenho vontade de ensinar o pouco que sei.
Lembrei disso porque já faz alguns meses que não conversamos nossas boas conversas e a falta que isto me faz é indescritível

segunda-feira, 27 de agosto de 2007


Extraordinary Machine
Fiona Apple é um prodígio. Lançou o primeiro disco (Tidal) muito nova, 18 anos, e atraiu bastante atenção, apesar de ser ainda um disco muito inconstante. De todo modo já mostrava ser uma compositora de mão cheia. Já no segundo (When the Pawn Hits the Conflict...) acertou em cheio. Composições com uma rara mistura de apelo pop com complexidade de arranjos e harmonias.Este terceiro, Extraordinary Machine, tornou-se uma lenda antes de ser lançado. Fiona e o produtor Jon Brion resolveram fazer um disco hermético, complexo, deliberadamente difícil. Mesmo com composições interessantes, quem ouviu (eu ouvi) atesta que ficou meio chato demais. Um pouco de pop não faz mal a ninguém, mas art-rock demais enche o saco.
O problema foi que a gravadora Epic, que tinha enterrado uma bela grana no projeto, decidiu que era anti-comercial e arquivou o disco sem previsão para lançamento. Começou então uma enorme campanha dos fãs da moça na Internet, que durou um tempão e acabou sensibilizando ambas as partes. Dizem que por iniciativa dela mesma, foi chamado um produtor mais pop (Mike Elizondo), que deu um tapa na obra e transformou o diamante bruto em obra de arte.
As composições já eram muito boas mesmo, só faltava uma roupagem mais palatável.
Assim nasceu uma pequena obra-prima, digna de artistas de primeira linha. Frequentou várias listas de melhores do ano em 2005t, quando finalmente foi lançado.
Da versão original, ficou só a abertura, Extraordinary Machine, e o encerramento Waltz (Better than Fine), esquisitices boas. O resto ganhou nova roupagem, com apelo pop e sofisticação de arranjos na dose certa.
Minhas favoritas são a abertura, a raivosa Get Him Back e a angustiada O' Sailor.
Escolha as suas, mas não deixa de ouvir.
E procura a versão original para comparar. Tem por aí pela rede.
C'est ça.

domingo, 29 de julho de 2007


Magnolia

Postei ali embaixo um disco da Aimee Mann e comentei de passagem que Magnolia é um dos filmes de que mais gosto e que o Paul Thomas Anderson concebeu o filme todo em cima de músicas dela. Recebi uma mensagem de uma conhecida (uma menina com quem não tenho muito contato, mas com quem simpatizo bastante) dizendo que também adora a Aimee Mann e, ainda mais, o Magnolia, que também é um dos filmes da vida dela. Ponto pra ela, que tem bom gosto para música e para cinema.
Apesar de ser uma trilha composta quase toda por músicas de um mesmo artista, tem mesmo cara de trilha sonora, porque são músicas tiradas de álbuns diferentes, de fases diferentes da carreira. Então é interessante para ver as influências diferentes e os estilos bem diferentes em cada música.
Destaques para a letra genial de One, a tristeza cortante de Deathly, a melodia simples e bonita de Build That Wall e a emoção devastadora de Wise Up.
Discaço. Filmaço.
Não perca, nem que chova sapos.

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quarta-feira, 25 de julho de 2007

- Como assim? Não estou entendendo.
- É, tudo está muito legal, você é demais, mais do que qualquer mulher poderia sonhar em ter, eu gosto muito mesmo de você, mas não sei se vai dar certo.
- Como assim? Eu sou legal e tudo, mas não rola, é isto?
- Sim, você é inteligente, culto, charmoso, divertido, tem bom gosto musical, gosta de artes, nos damos bem na cama, tem bom caráter, tem bom papo, não é fanático por futebol, diz por favor, com licença, obrigado, bom dia, boa tarde e boa noite, enfim, é perfeito, mas algo no fundo do meu coração diz que não vai dar certo.
- Ainda não entendi. Você quer dizer que eu sou o cara perfeito pra você e pra qualquer mulher, que você sente algo profundo por mim, mas você não quer ficar comigo?
- É.
- Mas por que?
- Não sei. É algo que meu coração está dizendo, não sei explicar.
- Mas, se eu fosse um pouco pior... quem sabe?
- Pode ser. É uma coisa muito louca, não consigo explicar.
- Sei.
- Mas não fica mal, sei que você vai encontrar a pessoa certa. Você é o máximo, não vai demorar. Vai aparecer alguém melhor do que eu.
- Mas eu não quero alguém melhor do que você.
- É, mas é o que o meu coração diz.
-Err, tá. Tá. Vou ali piorar um pouquinho e já volto.

sábado, 14 de julho de 2007

Mazzy Star

Em algum lugar neste blog comentei que o Silversun Pickups é algo como o Jesus & Mary Chain com a Hope Sandoval no vocal. Besteira minha. Hoje vejo que eles estão muito mais para Smashing Pumpkins (o que não deixa de ser bom, veja bem).
E o que isto tem a ver com você e com este poost?
Na verdade, nada. Foi só uma introdução boba para falar da banda da Hope Sandoval, o Mazzy Star.
Tiveram relativo sucesso no meio alternativo na década de 90 e acabaram sem deixar muitos rastros. Três discos muito bons e uma carreira solo legal da Hope Sandoval.
Este So Tonight I Might See é o segundo e melhor deles. Tem tudo que a banda sempre teve de melhor, ou seja, psicodelia e mais psicodelia. Não a psicodelia docinha do Jefferson Airplane. Está mais para sombrio, tipo Doors e Velvet Underground, com vocais etéreos e climas viajantes.
Tem o hit (quase hit) Fade into You e mais pelo menos uns seis clássicos.
Para ouvir viajando.
Muito recomendado.


The Best of Blaxpoitation

Bela coletânea de funk, soul e groove da década de 70. Blaxpoitation é o nome que deram para o boom de filmes feitos por e para negros nos Estados Unidos no início da década de 70. As trilhas sonoras traziam o melhor que os negões estavam fazendo por lá na época. Os filmes não eram grande coisa, recheados de sexo barato e violência (bom, talvez sejam grande coisa se você, como eu, curte um Tarantino). Talvez o melhorzinho, e mais famoso, tenha sido Shaft (cuja música tema, feita pelo Isaac Hayes, abre a coletânea). Agora, as trilhas eram do cacete.

Este Best of é uma compilação do melhor das melhores trilhas.
Além do Isaac Hayes, tem quase tudo do que de melhor se fazia em matéria de black music. Coisas como Marvin Gaye, Donny Hathaway, Bobby Womack, Curtis Mayfield, Sly Stone, Bootsy Colins, Billy Paul, Earth, Wind & Fire e outros. Difícil reunir mais pedradas black num disco só.
Repare que existem várias coletâneas com o nome Blaxpoitation. Esta é meio pirata. Comprei na feirinha de sábado da Portobello Road. Nunca vi para vender em nenhbum outro lugar e nem consegui achar a foto da capa verdadeira para colocar aqui.
Ou seja, é raridade muit0 rara.
Pega lá, chama uma galera, acende um e boa diversão.

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terça-feira, 3 de julho de 2007

Lá no fundo

Estive outro dia pensando, e pensar me faz bem, como deveria fazer a todos, mas às vezes faz mal também, veja você como coisas boas podem fazer também mal, olha só como é a vida. No vai e vem desses pensamentos apareceu você e você estava lá desafiadora, querendo não ir embora, querendo ficar lá naquele lugar que já tem uma placa com o seu nome e já tem as suas marcas, como aquele sapato velho e confortável que já tem a marca dos pés da gente e a gente gosta porque é familiar e confortável. Não que seja uma novidade você estar lá naquele pensamento específico, porque você deixou de ser só coadjuvante neles (os pensamentos) faz tempo. O curioso foi que aquele pensamento que naquela hora lá brotou era um pensamento de mandar você embora de tudo, de jogar fora o sapato confortável e de abrir a janela e deixar entrar sol no quarto de manhã. E você não quis sair dele, olhe só, veja você.
Ele, o pensamento, era sobre coisas muitas e sobre como estas muitas coisas se acumulam e viram um sentimento e como os sentimentos ligados viram histórias e como as histórias preenchem dias e como os dias acabam formando uma vida e como, mesmo formada por tantas coisas tão pequenas que parecem estar sob nosso controle (como sentimentos, histórias e dias) a vida é uma coisa completamente descontrolada.
E o pensamento também era sobre o que fica das pessoas se você tira a camada superficial de insegurança e medo que nelas há, o que é que há lá no fundo das pessoas, mas acabei vendo que quando você tira uma camada logo aparece outra camada e depois mais outra e então acontece que não existe um lá no fundo, porque as pessoas são camadas infinitas e não se poderá nunca querer saber quando vai ser a última.
E o pensamento era também sobre a vida e sobre o que será dela (tudo na vida é o que será dela, mesmo quando o que vem aos pensamentos é o que já foi dela, já reparou?, reparei nisso outro dia só) e reparei numa coisa. Reparei nas coisas que me fazem rir e como elas me fazem rir e porque elas me fazem rir. Claro que não precisei reparar (porque isto é ainda para mim muito claro) que importante na vida é rir, para além de só sorrir. Mas reparei (acho que perdi a mão de botar melhor reparo nas coisas) no que me faz rir e reparei que você me faz rir. Uma vez, num dia estranho em que tudo era estranho, até aquilo que sempre é normal, escrevi isto pra você em tom de elogio, mas você deve ter lido só como uma crônica, ela que crônica não era, porque estava mais para uma ode, daquelas que o Neruda faz tão bem e que eu, pobre coitado, nem faço parecer uma ode, mas só uma crônica.
E reparei que você me faz rir e que é raro que as pessoas me façam rir, porque é preciso sempre um pouco mais para que pessoas como eu e você riamos. Este pouco mais é pouco, assim como pouca é a diferença genética que existe entre um macaco e um homem, mas é a mais fundamental de todas as diferenças.
E, ainda lá pensando os meus pensamentos, tentei descobrir porque você me faz rir e porque outras pessoas não fazem. E nas grandes veredas dos pensamentos, fui lá me meter a também pensar sobre porque eu faço você rir de um jeito que ninguém mais faz.
Sintonia foi a palavra que apareceu.
E você sabe o seu porquê e eu sei os meus, não precisamos falar sobre eles.
De triste mesmo, ficou a certeza de que vai ser difícil alguém me fazer rir de novo como você. Acho que aí desse lado vai ser difícil também, embora eu torça para que não seja, torcendo ao mesmo tempo para que seja, olha só como são os pensamentos e os desejos da gente.
E é isto, vou começando numa história nova, fingindo como sempre ser quem não sou e ainda não conseguindo deixar de compartilhar os meus pensamentos com você.
Quem me dera conseguir.

quinta-feira, 14 de junho de 2007


Aimee Mann - The Forgotten Arm


Aimee Mann é protagonista de uma situação não muito comum. Normalmente diretores de cinema pedem que artistas façam músicas para seus filmes, ou então usam músicas que já existem como trilhas. No caso dela, aconteceu que um diretor escreveu (leia-se concebeu/estruturou) todo um filme baseado em suas canções. Poderia parecer pouco, se o filme em questão não fosse Magnolia, algo muito próximo de uma obra de arte perfeita (na minha opinião, veja bem).
Este The Forgotten Arm é seu quinto álbum solo (depois que saiu do 'Til Tuesday, grupinho de pos new-wave de razoável sucesso na década de 80). Como nos anteriores, a base do som é um folk-pop agradável e bem construído, com melodias que grudam no ouvido.
Apesar de ter uma das vozes mais marcantes do cenário pop-rock, o destaque são as letras inteligentes e bem sacadas.
Neste caso, trata-se de um disco "conceitual", que conta a história de amor entre um boxeador junkie (?!) e uma fotógrafa, com todos os conflitos, conciliações e reconciliações que se pode pressupor existir numa história de amor.
É um disco excepcional, na minha humilde opinião.
Vale conferir.

sexta-feira, 25 de maio de 2007


Jesus

Fiquei absolutamente chapado quando ouvi este disco pela primeira vez. De certa maneira, ainda fico quando ouço hoje em dia.
Isolados, os elementos que compõem a música do Jesus & Mary Chain já eram meio manjados em 1985. Mas, juntos, as melodias grudentas dos Beach Boys enterradas debaixo de toneladas de microfonia, à la Velvet Underground, tudo com arranjos wall of sound, à la Phil Spector, causaram um dano irreversível à música pop.
O sucesso comercial do J&MC é praticamente nulo, mas não é exagero dizer que os caras se tornaram a maior influência de uma geração muito boa que veio depois. Aliás, como o Velvet Underground, que é a maior influência deles.
Definitivamente, é o disco que mais gosto. Pra mim, o melhor disco de pop/rock de todos os tempos.
Minha opinião.
Ouve lá e diz a sua. Mas ouve alto, Psychocandy não é para iniciantes.

segunda-feira, 21 de maio de 2007


Cowboy Junkies


Banda canadense formada no meio dos anos 80 e ainda atuante. Já foram queridinhos da crítica brasileira nos tempos da Bizz. Com justiça. O som tem fortes influências de blues, country e folk, com lindas melodias e arranjos muito simples, que muitas vezes privilegiam o silêncio para destacar alguns detalhes. O detalhe principal, no caso, é a voz de Margo Timmins, que é das mais insinuantes, sexys e poderosas do rock alternativo.

Aqui neste Lay it Down eles deixaram um pouco de lado a simplicidade dos primeiros discos e arriscaram arranjos um pouco mais complexos. As melodias continuam lindas, a voz de Margo também, mas ouvem-se mais guitarras.
Não é ruim, acredite.

Um dos discos de que mais gosto.
Ouve lá.

quinta-feira, 10 de maio de 2007



O Rei é uma Besta

Nunca gostei exatamente de Roberto Carlos. O cara merece respeito pela carreira que construiu, pela atenção que atrai, por uma ou outra música realmente genial. Tem um carisma inegável, e coisa e tal (mas até aí o Maluf e o ACM também).
Eu até sabia que o cara é esquisito, mas não sabia que era o jumento que se revelou neste episódio da biografia.
Proibir obra literária é coisa de gente atrofiada.
Se você não sabia, o cara que escreveu a biografia, Paulo César de Araújo, é um grande fã e pesquisou durante quinze anos para escrever o livro.
Em homenagem ao rei e ao juiz estúpido que proibiu, baixa o livro ali embaixo (em arquivo PDF). Nem que seja para rasgar.

Roberto Carlos em Detalhes (cortesia do Escriba v3.0):

http://www.escriba.org/blog/wp-content/uploads/2007/05/paulo-cesar-de-araujo-roberto-carlos-em-detalhesrev.pdf

terça-feira, 8 de maio de 2007


Feist
Leslie Feist tornou-se um pequeno ícone do mundo indie-alternativo por ser integrante muito ativa do Broken Social Scene. E também por cantar muito, compor muito e ser absurdamente linda e charmosa.
Este é o seu segundo álbum solo, chamado The Reminder.
O primeiro, Let it Die, foi muito elogiado. Com muita justiça, diga-se, porque é cheio de ótimas idéias, excelentes composições, clima cool, arranjos criativos (apesar de super simples). Enfim, é uma pequena obra-prima.
Neste ela continua mostrando que é uma ótima compositora, excelente cantora, mas acabou perdendo um pouquinho a mão nos arranjos, que perderam um pouco a atmosfera de simplicidade e, por isso, ficaram um pouco menos cool.
Nada grave. O disco é muito bom. Vale ouvir.
Depois trago o outro.


We have been invaded


Welcome japanese people. Make yourself at home, please take a beer in the fridge and enjoy your visit.
And leave a comment.

quarta-feira, 2 de maio de 2007


Dub Side of the Moon

Contei ali embaixo a história dos negões (Easy Star All-Stars) que tiveram colhões para regravar o OK Computer do Radiohead em versão reggae.
Naquele post contei que os caras tinham tido coragem antes de regravar o Darl Side of the Moon em versão reggae e que fãs idiotas do Pink Floyd do mundo inteiro protestaram dizendo que era sacrilégio e bla bla bla.
Pois então, aqui está a bolacha em questão. Ouça e tire suas conclusões.
Pessoalmente, achei a versão reggae bem melhor, com destaque para Us and Them e Breath (que são as que mais gosto no álbum original). No geral, as versões são razoavelmente fiéis aos originais, por mais maluco que isto possa parecer.
Ahh, outro dia descobri que algum maluco regravou The Wall numa versão country.
Prefiro não descobrir como ficou...

quarta-feira, 25 de abril de 2007


Mais Silversuns


É o líder absoluto de audiência neste humilde espaço. Então, se você gostou, aí vai mais.

Taata-se de Pikul, um EP lançado em 2005 com seis músicas. O grande destaque é Kissin Families, um pequeno clássico indie.

Escrevi ali embaixo que os caras são uma mistura de Jesus & Mary Chain (fase Automatic) com My Bloody Valentine com Smashing Pumpkins. Aqui eles estão mais para os últimos, o que não chega a ser extamente horrível, não?

Achei mais fraco que o Carnavas, mas ainda assim é coisa fina.

Confere lá.


Desesperados

"Ela sorriu, imaginando se alguma vez antes o gato teria recebido um toque humano amigável, e ainda estava sorrindo quando o gato empinou nas pernas traseiras, ainda sorria quando ele atacou com as garras de fora, sorrindo até o segundo em que ele afundou os dentes nas costas de sua mão esquerda e se pendurou em sua carne de tal forma que ela quase caiu para frente, surpresa e horrorizada, mas consciente da presença de Otto a ponto de abafar o grito que lhe subia da garganta ao arrancar a mão daquele círculo de arame farpado"

A simples mordida de um gato precipita uma série de pequenos desastres no cotidiano de um casal de meia idade e vai começar a revelar as mazelas e fraquezas de um casamento falido, tendo como pano de fundo a decadência da Nova York do início dos anos 70.
Isto é Desesperados, uma pequena grande obra-prima de Paula Fox, que a Companhia das Letras acaba de relançar, depois de muitos anos fora de catálogo. Achei a tradução um pouco fraca, mas nada que prejudique muito. Na verdade, o ideal é ler no original para perceber que não se trata de um livro meramente escrito. Ele é quase esculpido. Cada palavra, cada frase foi cuidadosamente escolhida e colocada para mostrar a angústia crescente que envolve não só o casal mas todos os que os cercam, até a explosão final.
Grandes questões são vistas de modo tão aparentemente simples e banal, mas ao mesmo tempo tão profundamente, que dá vontade de começar a ler de novo assim que acaba, para tentar identificar todas as entrelinhas.
A angústia e o medo de sentir dor são piores do que a dor em si. É a lição que fica.
Altamente recomendável.
Te empresto assim que eu acabar de ler pela terceira vez.

terça-feira, 24 de abril de 2007


Juventude Sônica


Estive conversando com um conhecido há alguns dias e o cara estava dizendo que ouviu Sonic Youth pela primeira vez e que ficou apaixonado pelo som. Até aí, nada demais, as pessoas conhecem bandas novas todos os dias. O que estranhei foi o fato de que, por ser músico, o cara tem (ou teoricamente deveria ter) um pouco mais de sensibilidade e curiosidade do que as outras pessoas e Sonic Youth não é exatamente uma novidaded.

Bem, os caras têm mais de vinte anos de estrada e sempre foram considerados os grandes nomes da cena alternativa mundial. Antes, meio que era um fenômeno concentrado em Nova York, mas os caras acabaram ganhando o mundo pelas beiradas. Nunca venderam milhões de cópias, mas sempre estiveram entre as bandas prediletas de quase todo mundo que gosta de rock alternativo. Aquele tipo de banda que muita gente já ouviu falar, mas ouviu pouco. O tipo de banda que é influência sempre e que é legal citar como referêrencia numa rodinha de conhecedores. Algo como Pixies e Velvet Underground, guardadas as proporções.

A obra dos caras sempre foi dividida em dois blocos: músicas melodiosas e viajantes, com guitarras com timbres sempre não usuais e pedradas sonoras com barulheira insuportável. Para mim, um bloco é muito legal e o outro extremamente chato.

Neste último disco (como nos dois anteriores), os caras deixam de lado as chatices e investem na parte melodiosa e em canções quase pop, mas com aquele gostinho indie que eles ajudaram a inventar.

É muito legal ver uma banda tão antiga deixando pra trás velhos vícios e, nesta altura da vida, gravando um quase clássico.

Vai lá, experimenta Rather Ripped.